Do alto da minha janela


Essa manhã, acordei com a morte ao meu lado. Não acordei com uma materialização do anjo da morte, acordei com a sua representação moderna: o carro de polícia.
Pela janela do meu quarto, ainda tão quente e colorido, senti o vento frio da manhã chuvosa com suas gotas teimosas que cortavam a alvorada. Vi o primeiro carro de polícia chegar e começar a avaliar o que acontecia. Por outras varandas, irrompiam olhares curiosos como os meus, um misto de espanto com horror, com algo mais profundo (talvez um medo do vazio).
Por certo, não vi o que aconteceu nem quem faleceu. Na minha vizinhança, de casas familiares, é uma manhã completamente atípica, o que traz um sentimento geral de desconforto, como a morte chegou tão perto e ninguém presenciou? Como não se escutou sua passagem?
Vejo uma moça chorar na calçada, não a conheço (assim como não conheço a maior parte dos meus vizinhos), mas a sua tristeza é conhecida por qualquer ser humano, é a clara expressão da dor da perda. Suas lágrimas quentes são constantes pelo rosto abaixado, a negação ainda tenta passar por seus olhos, contudo há realidades que nem com nosso maior desejo conseguimos  negar.
Por fim, saiu da casa o corpo, uma casca já sem alma. O mais doloroso? Não havia sido algo natural, mas assim como os ouvidos da morte permaneceram silentes ao clamor de seu espírito por vida, nossos ouvidos estavam silentes sobre a tragédia que o atingiu. Eu, que tantas vezes viro a madrugada olhando o nada desta mesma janela, gostaria de ter olhos para  entender como podem acontecer tantas variações da mesma madrugada e do mesmo céu para as pessoas. Para tantos, uma noite calma, para outros, uma derradeira.
E, ainda cedo, os carros saíram, curiosos se dispersaram e só permaneceu a mesma mulher, olhando em negação o nada, seguindo o caminho por onde todos partiram.
Eu entrei em casa e comecei esse texto, talvez porque algumas coisas devam  ser ditas às vezes, talvez porque saiu de mim aquela paz natural de acordar, talvez porque eu precise me sentir viva e só as palavras façam isso.
Do alto de minha janela, ainda observo a mulher enlutada, nossa distância física é pequena, mas sei que a alma dela está em um lugar muito distante de qualquer pessoa próxima, está naquele pequeno ponto de inflexão que atingimos apenas algumas vezes na vida, o ponto em que percebemos que a nossa existência nessa terra é finita e damos o verdadeiro adeus, o eterno.

Comentários

Postagens mais visitadas