Café para Dois
Segue um pequeno conto autoral, espero que gostem!
Você já se pegou na rua observando a vida das pessoas? Eu sempre faço isso.
Sei que esse não é um hábito dos mais educados, mas às vezes não consigo me conter, fico tão presa pelas emoções dos outros que sou atraída pela situação. Um momento às vezes carrega por trás de si toda uma história, as vezes até um ávida em comum. Observando uma pessoa sozinha você nunca é capaz de perceber sutilezas sobre sua personalidade mas quando duas pessoas interagem um mundo parece eclodir. Por isso observo mesmo quando não devo, o que é exatamente o caso agora.
Uma dupla conversa na minha frente, pelo que consegui deduzir eles são um ex-casal, estão a duas mesas de distância, na parede do canto da cafeteria. Eles debatem sobre um trabalho de reforma que tinham feito juntos na casa de um amigo em comum, uma mudança num quarto de hóspedes que virou um escritório.
- Francamente Roberto, suas ideias eram péssimas. Te falta organização e objetividade no trabalho.
Alguém mais sente que ela não está só falando do “trabalho” dele?
- As minhas? E seu projeto original carregado de exageros, difícil de compreender e ultrapassado? Se não fossem minhas ideias estaríamos com um belo problema quando o Guto visse o que fizemos na casa dele.
- Ele adora minhas ideias, sempre gostou do meu estilo. Não teria problema se fosse só o meu projeto.
- Então por que não me pediu para ir embora?
- Porque eu nunca fui controladora, meu caro.
- Não? Desculpe Viviane, mas não está muito bem para dizer um absurdo desses.
- Já chega. Não sei para quê ainda converso com você. É frustrante como conversar com a parede.
A tal Viviane sai irritada e intempestiva do café. Acompanho seus passos para a porta com o olhar. Porém, acabo me traindo ao voltar a olhar para o Roberto ao invés de encarar meu exemplar de Marília de Dirceu esquecido na mesa. Ele me olha de volta, percebe que eu estava acompanhando toda sua conversa. Que beleza Lara, tão discreta como um elefante numa cristaleira!
O que fazer? Reúno minha dignidade e abaixo a cabeça. Meu cabelo curto cacheado não consegue esconder muito meu rosto, porém é melhor que nada.
Volto para meu verso esquecido, “E lhe digo: Amor perdoa...”.
Contudo, antes que eu perceba, a cadeira na extremidade da minha mesinha é arrastada, o Roberto se senta e me encara. Ai meu Deus, já sou velha demais para levar bronca na rua. Melhor me preparar para o ouvir...
- ‘Enquanto vive Marília bela, não morre Amor’.
- Ahn?
- Meu verso favorito desse livro, muito bom por sinal.
Obviamente estou com cara de tacho depois dessa. Ele veio conversar do livro?
- Foi um dos primeiros livros de poemas que gostei de ler na vida, é bem delicado e triste. – ele começa a conversar como se nada estivesse acontecendo. O encaro sem dizer uma palavra. É um rapaz com uns vinte e um anos (mais velho que eu por volta de três anos), camisa jeans escura, barba de uns dois centímetros, magro, mas não tanto, cabelo negro curto sob uma touca de lã preta.
O que fazer? Sei lá, se soubesse não estaria me perguntando agora. Vamos para a velha prática de fingir normalidade.
- É meu verso favorito até agora também.
- Olha só, ela fala! – ele sorri para mim.
- Só fiquei surpresa com a sua chegada. Levei um tempo para assimilar e responder.
- Entendo, que deselegante da minha parte chegar assim, me intrometendo na sua tarde, não é mesmo? Meu nome é Roberto, mas tenho certeza que você já sabe.
Ele é mega irônico comigo, porém não é grosseiro nem nada, só parece se divertir em me provocar.
- Lara, e desculpe por ficar encarando, sou curiosa demais as vezes.
- Não tem problema a curiosidade, só precisa melhorar a discrição para o futuro. No fim todas as pessoas se metem um pouco na vida dos outros, é natural. Eu vivo ouvindo conversas de estranhos no ônibus, como posso reclamar quando acontece o mesmo?
- Só não entendi por que você veio para cá.
- O café daqui é ótimo, achei que seria um bom lugar para a tarde.
- Você entendeu, aqui na minha mesa.
- Ora, um rapaz não pode sentar aleatoriamente com uma moça bonita num café vazio?
- Não é algo que geralmente se faça, ainda mais quando a moça estava tomando parte da vida do rapaz. Achei que você vinha reclamar comigo, o que seria um mico.
- Não, já tive brigas demais por hoje. E vim na sua mesa pelo café, que inclusive está chegando.
O garçom nos interrompe, olha um pouco intrigado, ele percebeu que não estávamos sentados juntos, e deixa dois cafés na mesa. Começo a falar, mas sou interrompida pelo Roberto.
- Café para dois, já tinha pedido antes da Viviane sair como um pequeno tornado. Não se desperdiça um café já pedido. Me acompanha?
Um café preto, sem nada está na minha frente. Não faz mal aceitar.
- Olha só, a moça também gosta de fortes sensações. Sem açúcar nem leite? Achei que você gostaria do café bem doce.
- Não, café para mim só tem que ter o gosto de café. Porém quando nos conhecemos tanto para você traçar conclusões sobre meus gostos?
- Tem uma xícara de chá vazia do seu lado, pelo cheiro foi daqueles de frutas vermelhas, e um prato com resto de glacê, geralmente não são itens de quem tome café puro. Sem falar que você está lendo um livro de romance e usando um marcador de fita rosa, além de sua camisa ser amarela clara, uma cor mais singela. Fiz um estereótipo.
- Muito atento. Mas não sou uma menininha cor de rosa, você julgou por um conceito que não é verdade. Uma roupa é só uma roupa, uma cor é só uma cor, um livro é só um livro. Se eu estivesse de preto isso não aconteceria? Acha que ai eu deveria ser mais agressiva e combinaria com o café?
- Comentário idiota, desculpe. Eu posso falar demais algumas vezes.
- Percebi. Sabe, aquele briga seria fácil de evitar se você contornasse os impulsos agressivos da sua ex.
- Não lembro de termos dito que éramos ex. Como concluiu isso?
- A tensão, tinha uma aura meio assassina em torno de vocês. Uma mágoa reprimida. Terminaram recentemente?
- Você é realmente curiosa.
- Sinto muito, fui indelicada.
- Tem cinco meses. Ela terminou comigo, acho que queria o Guto.
- O cara do escritório? Achei que ele era amigo de vocês.
Roberto me encara e começa a rir.
- Tive uma espectadora atenta. Não, ele é amigo dela e meu conhecido. Estudamos juntos no ensino médio, mas eles que são próximos. Eu tinha uma consultoria de residência com Viviane, ambos estamos terminando o curso de designers de interiores. A consultoria começou quando ainda estávamos namorando, quando terminou tentamos funcionar um tempo sendo profissionais, porém não deu, foi nosso último serviço juntos.
- Não terminou tão bem, sinto muito.
- Tudo bem, faz parte. Ela foi uma pessoa super importante na minha vida mas não estamos alinhados no momento, cada um deve seguir seu caminho para o carinho continuar.
- Uma filosofia bem pacífica.
- Como todas deveriam ser. Agora me conte um pouco sobre você.
- Não tem muito que saber. Sempre venho aqui, estou de férias de meio de ano, no último ano do ensino médio e gosto de café e chás. O restante não importa muito.
- Sem namorados?
- Nunca tive, muito trabalhoso.
- Depende da pessoa, deveria tentar.
- Faltam candidatos, talvez algum dia.
- Se quiser um, só avisar.
- Você é bem engraçadinho. Nem te conheço.
- Não seja por isso, que tal um café para dois amanhã novamente?
- Se eu aceitar o que vai acontecer?
- Vai aceitar meu convite todas as próximas vezes que eu o fizer e por fim vai me convidar também.
- E se você quiser parar de me convidar depois de amanhã?
- Pode apostar que isso não vai acontecer. Se fosse, eu não teria feito o primeiro convite.
- De onde vem tanta certeza?
- Do que vejo refletido nos seus olhos.
- Que seria?
- Minha metade.
- Uma cantada bem brega.
- Brega, mas você gostou, então está valendo. E sempre vale ser brega quando a causa é sincera. Aceita?
- Aceito.
- Ótimo, então venha comigo ver o sol se por pela janela. Agora posso convidar já que tenho a promessa de amanhã, não será tanta apelação.
- O que te dá tanta certeza que combinamos?
- Nada. Mas eu me sinto bem com você e isso me importou para te convidar, vamos nos conhecer mais em cada café e, mesmo que não concordemos com nada, há sempre a esperança deixada pela frase “os opostos se atraem”.
- Você é maluco.
- E você foi atraída por minha maluquice desde que sentei nessa mesa. Achou algo em mim parecido com algo que tem em você, a curiosidade. Estou errado?
- Não, está bastante certo. Vamos descobrir se existem outras semelhanças então.
- Mesmo que não existam, podemos criar uma a cada dia, um motivo para o café que virá. Agora aceite minha mão e vamos olhar esse por do sol.
Fomos até a pequena sacada do café, no horizonte o céu se tingia de matizes de laranja, tudo transpirava calma e leveza.
- Qual seu maior sonho Lara?
- Viver, sem arrependimentos ou medo do amanhã. Saber que tudo pode dar errado, mas que vale mais a pena ter vivido que não ter feito nada.
- Meu maior sonho é ser livre.
- Ser livre? Você parece uma pessoa perfeitamente disposta a sua vida com compromissos sem prazo de ter fim, como esse convite para amanhã.
- Ser livre não significa estar sozinho, significa não se prender a amarras vazias. Te conhecer mais não vai me prender, nos conhecermos melhor não é o que chamaria de peso, pelo contrário. Quero ser livre das coisas que não vejo sentido, quero ser livre de tantos preconceitos que posso ter, de tanto apego a coisas inúteis. Porém, empregar meu tempo em um café como hoje? Neste tipo de compromisso fico muito feliz em me prender.
Então, nós conversamos olhando para o céu e, na hora de sair, ele estendeu a mão e me ofereceu companhia até em casa.
***
Aceitei a mão e voltei para o café no dia seguinte, volto até hoje. Já passamos do nosso milionésimo café há muito tempo e seguimos contando.
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